# A atualização que ninguém pediu


Abra qualquer app esta semana e algo mudou de um dia para o outro. Chamei um Uber e o carrinho no mapa tinha a bandeira da minha seleção. Abri um app de delivery e pulou um cupom *porque alguém fez um gol* do outro lado do planeta. Entrei no Duolingo para fazer minha lição e o Duo estava vestido com a camisa de uma seleção. Mandei uma mensagem com o emoji da bola e ele virou a bola oficial da Copa. Procurei um resultado no Google e a tela me jogou uma animação de comemoração.

Nenhuma dessas atualizações consertou nada. Nenhuma deixou o app mais rápido, mais seguro ou mais útil. Todas existem pelo mesmo motivo: tem uma bola rolando em algum estádio e ninguém quer ficar de fora da conversa.

Houve um tempo em que uma atualização de software era uma promessa. Você esperava meses para *aquele* bug ser corrigido, para a bateria durar um pouco mais, para a coisa parar de travar. A atualização chegava a milhões de pessoas, e por isso era levada a sério. Hoje fazemos deploy para esses mesmos milhões, coordenando cinco plataformas ao mesmo tempo, para colar uma bandeira num ícone. E na semana que vem vamos tirar, e ninguém vai lembrar que existiu.

Este artigo é sobre isso: o número, não o conteúdo. Sobre como uma ninharia acaba afetando alguém do outro lado do mundo e depois some tão rápido quanto apareceu. Sobre como a mola psicológica que faz isso funcionar foi *deliberadamente* projetada. E sobre por que esse padrão é exatamente o mesmo do OpenClaw, das cripto, da IoT, do big data, e de quando mudamos o trabalho da América para a Ásia.

{{< admonition type="note" title="Sobre as fontes" open=true >}}
Todo número neste artigo está linkado à sua fonte original, pública e gratuita. Se uma afirmação não tem link, é opinião minha e está escrita como tal. As imagens de apps são **reconstruções ilustrativas** (não capturas reais): o padrão importa mais que o pixel, e cada caso está citado ao seu anúncio oficial.
{{< /admonition >}}

## A Copa como um deploy em massa

Vamos repassar o que aconteceu, com nome e sobrenome. Não foi um app — foram todos.

{{< image src="images/world-cup-apps_pt.png" caption="A mesma bola disparando um deploy em cada tela. Reconstrução ilustrativa; cada caso está linkado à sua fonte abaixo." >}}

A **Uber** deixou você personalizar o ícone do carro no mapa com a bandeira da sua seleção, e lançou as *"Defeat Deals"*: se o seu time é eliminado, ela te dá 30% de desconto numa corrida futura ([Uber Newsroom](https://www.uber.com/us/en/newsroom/traveling-for-soccer-this-summer/), [The Points Guy](https://thepointsguy.com/news/uber-world-cup-features/)). O seu luto esportivo, virando cupom.

A **PedidosYa** (a gigante de delivery da América Latina) rodou a campanha *"Se tem gol, tem cupom"*: cada vez que sai um gol, o app libera cupons em tempo real. A campanha promete distribuir, em média, mais de **2,7 bilhões de pesos** em cupons — mais de **77 milhões por dia de jogo** — em 14 países latino-americanos, de 11 de junho a 19 de julho ([Infobae](https://www.infobae.com/america/agencias/2026/06/12/pedidosya-celebra-la-fiesta-del-futbol-entregando-millones-de-cupones-con-una-campana-inedita-si-hay-gol-hay-cupon/), [Revista Mercado](https://mercado.com.ar/marketing/pedidosya-activa-cupones-de-descuento-por-cada-gol-con-una-campana-regional)). Um gol num estádio dispara uma chuva de cupons que faz milhões correrem para abrir o app antes que acabem. Isso é um evento de infraestrutura, disparado por uma bola.

O **Duolingo** montou a *Duo Cup*: **48 uniformes de seleção** que você desbloqueia completando lições, num cronograma **aleatório** para que você não saiba qual está disponível e volte todo dia para conferir ([Duolingo](https://www.duolingo.com/duo_cup_suits_intro), [Duolingo Wiki](https://duolingo.fandom.com/wiki/Duo_Cup)). O marketing é nacionalismo puro: *"a seleção precisa de você, desbloqueie seu uniforme"* ([Duolingo no Facebook](https://www.facebook.com/duolingo/posts/the-national-team-needs-you-unlock-your-duo-cup-avatar-suit-%EF%B8%8F/1440333504788285/)).

E os gigantes não ficaram de fora:

- O **WhatsApp**, com Adidas e FIFA, fez o emoji da bola virar a *Trionda*, a bola oficial, durante todo o torneio — além de figurinhas temáticas, efeitos nas chamadas e um diretório de canais da Copa ([Social Media Today](https://www.socialmediatoday.com/news/meta-announces-world-cup-features-across-its-apps/822741/), [Claro Sports](https://www.clarosports.com/futbol/mundial-2026/el-mundial-2026-llego-a-whatsapp-con-golazo-como-utilizar-el-nuevo-emoji-animado-del-balon-trionda/)).
- O **Google** rodou uma série de **69 Doodles** (36 artes únicas em 189 mercados, de 11 de junho a 20 de julho) e *easter eggs* na busca que comemoram sua vitória ou consolam sua derrota ([MediaPost](https://www.mediapost.com/publications/article/415745/google-touts-ai-search-for-world-cup-games.html)).
- O **Instagram** somou alertas de placar ao vivo, figurinhas e efeitos temáticos ([Social Media Today](https://www.socialmediatoday.com/news/meta-announces-world-cup-features-across-its-apps/822741/)).
- O **TikTok** chegou a lançar o *TikTok Pro Events*, **um app à parte** dedicado à Copa, onde você ganha "Stars" por participar ([TechCrunch](https://techcrunch.com/2026/06/03/tiktok-launches-tiktok-pro-events-an-app-for-cultural-moments-like-the-fifa-world-cup/)).

Um app novo inteiro, para um evento de cinco semanas. Esse é o nível de investimento que uma bolinha dispara.

{{< image src="images/app-shots_pt.png" caption="Assim apareciam alguns: o emoji Trionda e o «GOL» no WhatsApp, o Doodle de comemoração do Google, a campanha da PedidosYa, o TikTok Pro Events e o hub da Copa no Instagram. Da bandeirinha da Uber, por outro lado, não saiu nenhuma captura. Materiais de imprensa e oficiais, uso editorial." >}}

## O caso Duolingo: vendem a camisa do seu país

O do Duolingo é o caso mais explícito sobre o que de fato está sendo vendido. Ele não entrou na Copa com uma animação grátis: abriu uma **loja**. A *Duo Cup* tem uma "Loja da Duo Cup" que te convida a *"comprar os uniformes dos seus times favoritos"* a **US$ 1,99 cada**, com um relógio de 21 dias correndo e uma seção de "ofertas especiais: mais uniformes, mais economia" para comprar em combo. Quase toda seleção custa dinheiro; só algumas vêm de graça.

{{< image src="images/duolingo-store_pt.png" caption="A Loja da Duo Cup: a camisa da sua seleção custa US$ 1,99. Argentina, França, Croácia, Espanha, México, Japão, Senegal… quase todas pagas, com contagem regressiva de 21 dias e descontos por combo. Capturas do próprio autor, junho de 2026." >}}

O enquadramento é o que revela: o app diz *"Mostre seu apoio com o uniforme da Argentina!"* e o único botão embaixo é **comprar por US$ 1,99**. Se você realmente quer apoiar a sua seleção, precisa comprá-la: naquela tela, querer e pagar são o mesmo ato. Um app de idiomas transformou o senso de pertencimento a um país num item cosmético com preço, e somou uma contagem regressiva que encurta a decisão.

Havia uma opção mais interessante à mão: o app poderia atribuir a cada usuário um país e deixar você ver, nas tabelas globais, a pessoa real por trás de cada bandeira — uma imagem concreta de quão global é o evento. Em vez disso, escolheu a mecânica que converte melhor: cobrar pelo uniforme.

> O objetivo não é melhorar o software, e sim pegar carona numa onda de atenção que já existe — antes que ela se dissipe.

## Não é o futebol: é cada evento, em cada país

É fácil olhar para tudo isso e pensar "bom, é a Copa, acontece a cada quatro anos". Mas o futebol é só o exemplo mais visível desta semana. O mecanismo é global e não para nunca: sempre há um evento para pegar carona, em algum calendário, em alguma cultura.

Na **China**, o *Singles Day* (11.11) que a Alibaba inventou transformou uma data sem sentido — o 11 do 11 — no maior evento de compras do planeta: só a Alibaba faturou **US$ 84,5 bilhões em 2021**, e junto com a JD.com passaram de **US$ 139 bilhões** em um único dia ([CNBC](https://www.cnbc.com/2021/11/12/china-singles-day-2021-alibaba-jd-hit-record-139-billion-of-sales.html), [Chain Store Age](https://chainstoreage.com/alibaba-sets-new-singles-day-record-845-billion-sales)). Uma data fabricada, um app, uma urgência de um dia.

Na **Índia**, não é futebol — é críquete. Quando a IPL joga, o app de fantasy **Dream11** — que diz ter mais de **200 milhões de usuários** — chega a **mais de 15 milhões de usuários simultâneos** no primeiro dia do torneio, com o críquete representando **87% de tudo o que se joga** ([Rest of World](https://restofworld.org/2023/dream11-fantasy-cricket-app-india/), [Wikipedia](https://en.wikipedia.org/wiki/Dream11)). Um país inteiro atualizando um app no ritmo de cada over.

No **Oriente Médio**, o evento é o calendário lunar: no Ramadã, super-apps como a **Careem** reorganizam a experiência inteira em torno do iftar e do suhoor — pedidos agendados, modos especiais, funções de doação — porque o próprio dia muda de forma ([Careem](https://blog.careem.com/posts/ramadan-trends-2025), [Arabian Business](https://www.arabianbusiness.com/culture-society/careem-shares-ramadan-2025-trends-massive-remittances-to-india-and-pakistan-most-popular-iftar-orders-top-bookings)).

Black Friday, Ano-Novo Lunar, Halloween, o Super Bowl, Diwali: mudam o país e a desculpa, mas a mecânica é idêntica. Sempre há uma onda, e sempre há um app te esperando para você não perder. A pergunta interessante não é *por que* fazem isso — é óbvio: converte. A pergunta é *como* chegamos a um mundo em que isso é o comportamento padrão de todo software que tocamos.

## Como isso foi massificado

Não foi acidente. O FOMO de hoje é o resultado de uma ideia de design que foi sendo lapidada durante meio século até virar o motor padrão da indústria.

Começa, antes da internet, com uma intuição econômica. Em **1971**, o Nobel **Herbert Simon** escreveu a frase que define tudo o que veio depois: *"uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção"* ([economia da atenção, Wikipedia](https://en.wikipedia.org/wiki/Attention_economy)). Se a informação é infinita e a atenção é finita, então a atenção é o recurso escasso — e onde há um recurso escasso, forma-se um mercado para explorá-lo.

Esse mercado encontrou sua mecânica na **recompensa variável**, o mesmo princípio que torna as máquinas caça-níqueis viciantes: você não sabe se ao puxar a alavanca vai ganhar algo ou nada, e essa incerteza — não o prêmio — é o que te mantém puxando. Em 2014, **Nir Eyal** empacotou isso como um manual de produto em *Hooked*: gatilho, ação, recompensa variável, investimento, repetir ([resenha na The Behavioral Scientist](https://www.thebehavioralscientist.com/articles/an-incomplete-loop-a-review-of-nir-eyals-hooked)). O ex-designer do Google **Tristan Harris** disse de forma mais crua: seu celular é *"uma máquina caça-níquel no bolso"*, e toda vez que você puxa para atualizar o feed, está jogando ([YaleGlobal](https://archive-yaleglobal.yale.edu/content/smartphone-addiction-slot-machine-your-pocket)).

E não é teoria da conspiração — quem confessou foi um dos que construíram. Em 2017, **Sean Parker**, primeiro presidente do Facebook, contou que a pergunta de design era literalmente *"como consumimos a maior quantidade possível do seu tempo e da sua atenção consciente?"*. A resposta foi te dar *"uma picadinha de dopamina"* de vez em quando — uma curtida, um comentário — para criar um *"loop de validação social"* que, segundo ele, *"explora uma vulnerabilidade da psicologia humana"*. O fecho: *"Só Deus sabe o que isso está fazendo com o cérebro das nossas crianças"* ([CNBC](https://www.cnbc.com/2017/11/09/facebooks-sean-parker-on-social-media.html), [Axios](https://www.axios.com/2017/12/15/sean-parker-facebook-was-designed-to-exploit-human-vulnerability-1513306782)). *"Entendíamos isso conscientemente. E fizemos mesmo assim."*

Daí saíram as duas mecânicas que massificaram o FOMO até torná-lo invisível:

**As ofensivas (streaks) do Snapchat.** Talvez o mecanismo mais coercitivo do software de consumo: não só te premia por usar o app todo dia, ele te *pune* por parar. A ofensiva é um número que você construiu com um amigo e que se apaga se você falhar um dia. A pesquisa liga isso diretamente à dependência do celular e ao FOMO em adolescentes ([ScienceDirect](https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2772503023000476)). O medo não é de perder algo bom — é de perder algo que você já tem.

**O Spotify Wrapped.** Aqui está o paciente zero do FOMO-por-compartilhar, e é genial de tão astuto. Em 2016, o Spotify pegou os seus próprios dados — os que normalmente dão medo — e devolveu embrulhados como um presente de fim de ano, prontos para postar. Transformou vigilância em comemoração. Passou de **30 milhões** de usuários abrindo em 2017 para **156 milhões** em 2022, e em 2023 gerou **mais de 2 bilhões de impressões** nas redes — publicidade grátis feita por você, porque você não queria ficar de fora do dia em que todo mundo posta seu Wrapped ([Wikipedia](https://en.wikipedia.org/wiki/Spotify_Wrapped), [The Conversation](https://theconversation.com/spotify-wrapped-success-story-unpacked-what-are-the-takeaways-251337)). Uma vez que um app provou que dava para fazer milhões se autopromoverem num dia fixo do ano, todos quiseram o seu próprio "Wrapped". A Duo Cup é o Wrapped da Copa.

E, como toda mecânica levada ao extremo, tem a sua caricatura: o **BeReal**. Um app cuja *única* função era o FOMO em estado puro — uma notificação em horário aleatório, dois minutos para tirar a foto, o pânico do "está na hora do BeReal". Funcionou tão bem que **68% dos usuários abriam o app em até 3 minutos** após a notificação. E depois evaporou, do jeito que tudo evapora na economia da atenção.

{{< image src="images/massification-decline_pt.png" caption="A mesma curva, espelhada. O Spotify Wrapped se massificando (usuários que o abrem todo dezembro) e o BeReal esvaziando (usuários ativos mensais) após o pico de 2022. Fontes: Wikipedia (Wrapped), Business of Apps (BeReal)." >}}

O BeReal passou de **73 milhões** de usuários ativos mensais em agosto de 2022 para **33 milhões** em março de 2023, e os downloads despencaram **60%** de 2023 para 2024 ([Business of Apps](https://www.businessofapps.com/data/bereal-statistics/), [Wikipedia](https://en.wikipedia.org/wiki/BeReal)). O FOMO sobe e desce na mesma curva: a atenção que dispara como um foguete é a mesma que depois não sustenta nada. Isso vale para um app inteiro, e vale — na escala de quatro semanas — para uma bandeirinha num ícone de carro.

## O número, não o conteúdo

O que une tudo isso é que paramos de medir a contribuição e começamos a medir o momento. O que importa é estar lá, não o que você diz. E não são só os apps: redações sérias também correm atrás do número, não do conteúdo. Uma notícia que antes durava semanas hoje dura dias, porque o que importa não é a profundidade, e sim pegar a onda a tempo.

{{< image src="images/newspapers-real_pt.png" caption="As capas reais de sexta-feira, 12 de junho de 2026, o dia depois da abertura: 20 capas de 11 países (via kiosko.net). Do Clarín ao The New York Times, do L'Équipe ao Daily Mail, todos deram destaque na primeira página. Reproduzidas para comentário editorial." >}}

Isso é mensurável. Um estudo na *Nature Communications*, [*"Accelerating dynamics of collective attention"*](https://www.nature.com/articles/s41467-019-09311-w) ([cópia grátis no PMC](https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6465266/)), descobriu que uma hashtag entre as 50 mais populares do Twitter ficava no topo cerca de **17,5 horas em 2013** e só **11,9 horas em 2016**. O mesmo padrão aparece nas bilheterias de cinema, nas citações científicas, no Google Books de cem anos atrás. A conclusão dos autores: a atenção coletiva tem um tamanho fixo, mas a gente coloca cada vez mais coisas para competir por ela, então cada tema se queima mais rápido e o próximo pisa em cima na sequência.

Isso é o FOMO em escala de civilização. O *fear of missing out* — medido desde 2013 com a [escala de Przybylski](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10943642/), que o correlaciona com ansiedade, pior sono e uso problemático do celular — deixou de ser um problema pessoal para virar o modelo de negócio. A bandeirinha da Uber, o cupom da PedidosYa, o uniforme do Duolingo: os três apostam que você tem medo de ficar de fora. E quase sempre acertam.

## O custo invisível da festa

Nada disso é de graça, mesmo que chegue grátis até você.

Cada uma dessas "comemorações" é um deploy de verdade: builds novas para iOS e Android, configs remotas, feature flags, banners, assets, telemetria para medir quanta gente tocou na bandeirinha. Multiplique isso por cada app que entrou na Copa e por cada plataforma que mantêm em paralelo. É uma quantidade enorme de engenharia, de dados e de energia gasta em coisas que vão ser apagadas em quatro semanas.

E os dados não são abstratos. A eletricidade consumida pelos data centers do mundo vai **mais que dobrar até 2030, para cerca de 945 TWh** — aproximadamente tudo o que o Japão consome em um ano — segundo a [Agência Internacional de Energia](https://www.iea.org/reports/energy-and-ai/executive-summary). Nem toda essa energia é por bandeirinhas de futebol, claro. Mas cada feature efêmera, cada evento de telemetria, cada chuva de cupons em tempo real para milhões soma a uma infraestrutura que já pesa como um país inteiro. Geramos oceanos de dados para comemorar algo que vamos esquecer. E isso é só a eletricidade: o mundo já produz [62 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano](https://unitar.org/about/news-stories/press/global-e-waste-monitor-2024-electronic-waste-rising-five-times-faster-documented-e-waste-recycling), reciclado cinco vezes mais devagar do que cresce.

E há um custo que quase ninguém nesses escritórios considera: nem todo mundo tem dados para gastar numa bandeirinha. A GSMA calcula que **3,1 bilhões de pessoas — 38% do planeta — têm sinal de internet móvel em cima delas, mas não usam**, e uma das barreiras principais é o custo ([GSMA, *State of Mobile Internet Connectivity 2024*](https://www.gsma.com/r/wp-content/uploads/2024/10/The-State-of-Mobile-Internet-Connectivity-Report-Key-Findings-2024.pdf)). A [Alliance for Affordable Internet](https://a4ai.org/affordable-internet-is-1-for-2/) considera "acessível" 1 GB a 2% da renda mensal ou menos; em 99 países de renda baixa e média, **só 31 atingem essa meta**, e o resto paga em média **5,76% do salário por 1 GB**. Na Argentina, onde os planos móveis custam [até quatro vezes o que custam no Uruguai](https://www.cronista.com/infotechnology/actualidad/argentina-tiene-uno-de-los-planes-de-celular-mas-caros-y-vale-cuatro-veces-el-precio-uruguayo/), racionar dados é a norma — tanto que em junho de 2026 uma empresa lançou um [*"WiFi pré-pago"* na rua, pensado justamente para quando você fica sem dados](https://www.canal26.com/general/2026/06/26/internet-sin-vueltas-en-la-calle-como-funciona-el-nuevo-wifi-prepago-de-telecentro-que-se-puede-usar-sin-ser-cliente/). Quem vive de QR de WiFi grátis, quem deixa os dados desligados até chegar a uma rede conhecida, não é um caso raro: é metade da humanidade. Para essa pessoa, um app que se infla de animações, telemetria e assets de um evento que ela não pediu não é uma comemoração: é um pedágio. Megabytes do plano dela, queimados para uma marca entrar numa tendência.

{{< image src="images/growth_pt.png" caption="Três curvas por trás da febre: o evento (GMV do Singles Day, em US$), o dado (GB por smartphone) e o deploy (apps novos no iOS por dia). Tudo cresce; nada para. Fontes: Wikipedia, Ericsson Mobility Report 2025, 42matters." >}}

## O desfile de modas que ninguém lembra

Aqui está a tese grande. A Copa é um caso fácil porque tem data de início e de fim. Mas a indústria inteira funciona assim: uma moda aparece, todos pegam carona, dura uns meses, afeta gente que nem pediu, e some. E ninguém volta a falar disso.

O exemplo mais fresco é o **OpenClaw**. Lembra? Começou como um projeto pessoal chamado Clawdbot, foi renomeado para Moltbot, depois OpenClaw, e em **fevereiro de 2026 passou de 100 mil estrelas no GitHub** — e em março já tinha ultrapassado o React, que rondava as 243 mil —, virando um dos repositórios não agregadores mais estrelados da história em tão pouco tempo ([KDnuggets](https://www.kdnuggets.com/openclaw-explained-the-free-ai-agent-tool-going-viral-already-in-2026), [Wikipedia](https://en.wikipedia.org/wiki/OpenClaw)). A *Fortune* cobriu como *"a última loucura"*, a febre do "crie uma lagosta" que transformava o setor de IA na China ([Fortune](https://fortune.com/2026/03/14/openclaw-china-ai-agent-boom-open-source-lobster-craze-minimax-qwen/)). Enquanto isso, uma análise de segurança da Bitsight encontrou **mais de 30 mil instâncias do OpenClaw expostas na internet**, muitas mal configuradas por usuários que clicaram nos avisos sem ler ([Bitsight](https://www.bitsight.com/blog/openclaw-ai-security-risks-exposed-instances)). Seu criador foi para a OpenAI, e o furor começou a se apagar tão rápido quanto pegou fogo.

Uma loucura de meses. Gente real exposta. E quase ninguém fala mais disso.

Não é novidade. É o [Hype Cycle da Gartner](https://en.wikipedia.org/wiki/Gartner_hype_cycle), descrito lá em 1995: cada tecnologia sobe a um "pico de expectativas infladas" e depois cai no "vale da desilusão" quando os experimentos não entregam. Todas percorreram:

{{< image src="images/hype-cycle_pt.png" caption="O mesmo gráfico, repetidamente: cada tecnologia sobe ao pico de expectativas infladas e cai no vale da desilusão. De cada dez que caem, seis nunca voltam. Fonte: Gartner Hype Cycle." >}}

O blockchain caiu do pico para o vale e ficou lá: a maioria das suas aplicações segue [afundada no vale da desilusão](https://www.ciodive.com/news/most-blockchain-applications-sunk-in-the-trough-of-disillusionment-gartn/564613/), segundo a própria Gartner. A IoT, o big data, o serverless: cada um foi, no seu momento, o que ia mudar tudo. De cada tecnologia que cai no vale, **seis em cada dez nunca voltam a subir**.

E a mãe de todas as modas nem sequer foi digital: foi mudar o trabalho da América para a Ásia. Foi vendida como progresso, como eficiência, como inevitável. Entre 2001 e 2013, o déficit comercial com a China custou aos Estados Unidos, segundo a estimativa do [Economic Policy Institute](https://www.epi.org/publication/china-trade-outsourcing-and-jobs/), **3,2 milhões de empregos**, dos quais **2,4 milhões eram industriais**. Aquilo não foi uma bandeirinha que se apaga em quatro semanas; aquilo mudou cidades inteiras para sempre. Mas o mecanismo mental foi idêntico: uma ideia que todos adotam ao mesmo tempo porque ninguém quer ficar de fora, e o custo é pago por outro, em outro lugar.

## A moda de hoje: coloque "agente" em tudo

Se o OpenClaw foi o pico viral, os **"agentes" de IA** são a onda corporativa que veio atrás. Em 2025 e 2026 não houve uma grande empresa de software que não anunciasse sua plataforma de agentes. Não preciso listar cem logos — o dado agregado diz mais.

A Gartner estima que, dos **milhares de fornecedores** que dizem vender "IA agêntica", **só uns 130 são reais** — o resto pratica o que chamam de *"agent washing"*: rebatizar de "agente" o chatbot, o RPA ou o assistente que já tinham. E prevê que **mais de 40% dos projetos de IA agêntica vão ser cancelados até o fim de 2027**, por custos que disparam, valor de negócio difuso e controles de risco insuficientes ([Gartner, junho de 2025](https://www.gartner.com/en/newsroom/press-releases/2025-06-25-gartner-predicts-over-40-percent-of-agentic-ai-projects-will-be-canceled-by-end-of-2027)).

*Milhares de empresas vendendo agentes, 130 reais.* Essa é a sua captura de cem apps, condensada num número. Mas alguns nomes grandes, para você ver a avalanche:

| Empresa | O que lançou | Fonte |
|---|---|---|
| **Salesforce** | Agentforce — agentes para a empresa toda, vendidos como "a empresa agêntica" | [Salesforce](https://www.salesforce.com/news/press-releases/2025/10/13/agentic-enterprise-announcement/) |
| **Microsoft** | Copilot + "Agent 365", apresentado no Ignite 2025 | [Microsoft](https://www.microsoft.com/en-us/microsoft-365/blog/2025/11/18/microsoft-ignite-2025-copilot-and-agents-built-to-power-the-frontier-firm/) |
| **Oracle** | Novos agentes no Fusion Applications + AI Agent Studio | [Oracle](https://www.oracle.com/news/announcement/ai-world-oracle-advances-enterprise-ai-with-new-agents-across-fusion-applications-2025-10-15/) |
| **Google** | Agentspace / Vertex AI Agent Builder | [Google Cloud](https://cloud.google.com/blog/products/ai-machine-learning/google-agentspace-enables-the-agent-driven-enterprise) |
| **ServiceNow** | Inovações de IA agêntica; comprou a Moveworks | [ServiceNow](https://newsroom.servicenow.com/press-releases/details/2025/ServiceNow-announces-new-agentic-AI-innovations-to-autonomously-solve-the-most-complex-enterprise-challenges-01-29-2025-traffic/default.aspx) |
| **SAP** | Joule agents + inteligência embarcada | [SAP](https://news.sap.com/2025/10/sap-connect-business-ai-new-joule-agents-embedded-intelligence/) |

O padrão é sempre o mesmo, né? Não é "tenho um problema e o resolvo melhor". É "tem um balão inflando e quero pegar carona antes que estoure". O avanço vira negócio, não melhoria. E quando 40% desses projetos forem cancelados em 2027, vamos estar todos olhando para o outro lado, falando da moda seguinte.

## Os números

{{< image src="images/numbers-grouped_pt.png" caption="Os números do artigo, agrupados nos seus três motores: os picos do evento, a máquina do FOMO e o que custa. Cada fonte está linkada ao longo do texto." >}}

## Amanhã vão esquecer

Quando a Copa acabar, os carrinhos vão perder a bandeirinha, os cupons vão se apagar, o Duo vai trocar de roupa e ninguém vai ligar para o uniforme que tanto custou. O app do TikTok dedicado ao torneio vai ficar morto na loja. A infraestrutura que fizemos deploy para tudo isso vai ser desmontada, e vamos começar a pensar no que vem depois. Porque lembrar custa caro.

Essa é a verdadeira função de toda essa máquina — a que Parker, Eyal e os outros projetaram, e a que o Snapchat e o Spotify aperfeiçoaram: não que você lembre, e sim que você nunca pare de olhar. Se você ficasse pensando na bandeirinha da semana passada, não estaria disponível para a moda da semana que vem. O esquecimento não é um efeito colateral; é o produto.

Não há nada de errado com uma animação de gol ou um uniforme de futebol em si. O notável é que isso tenha virado o *auge* da ambição do software de consumo. Antes a gente esperava meses por uma atualização porque ela ia melhorar algo que usávamos todo dia. Hoje atualizamos todo dia para que você não esqueça de olhar — e, acima de tudo, para que você olhe algo que antes nunca te interessou: um jogo entre dois países que não são o seu, um resultado que não muda nada na sua vida, um evento que aconteceu a milhares de quilômetros e do qual você vai ficar sabendo de qualquer jeito porque o app fez questão de você não poder ignorar. Te ensinaram a ter FOMO de coisas que ontem você nem sabia que existiam.

Da próxima vez que um app mudar de um dia para o outro, pergunte-se uma coisa só: isso serve a mim, ou serve para eu não ir embora? Você quase sempre vai saber a resposta. E quase sempre, amanhã, você já não vai lembrar — com certeza tem algo mais urgente precisando da sua atenção, e você não pode perder.

